sábado, 27 de outubro de 2007

Mãos.


Pare um minuto de ler este texto. Aliás, nem comece. Olhe primeiro para suas mãos. Analise-as. Cada ruguinha que for possível, cada centímetro de pele, cada mancha, cada linha...


Agora, pense no que suas mãos têm realizado. Não são apenas mãos: são suas atitudes que se projetam nelas, é uma história que está impressa em suas digitais. Mãos. Instrumentos de obras e pensamentos, que servem para abençoar e levantar caídos, mas que também podem destruir e ferir.


Mãos. Guias entre florestas de teclas alfanuméricas, socorro, alimentos ofertados, lágrimas e suores enxugados, mas também espadas levantadas, pedras atiradas, tapas e socos. Raios de pensamentos, canais de atitudes, ações, reflexões, coceiras, proteção. Mãos.


A alma se reflete nos atos manuais. O quê temos feito com nossas mãos? O que nossas mãos fazem de nós? Teremos orgulho de deixar nossas digitais carimbadas na História? O quê estas marcas lembrarão? Um passado desonroso ou uma promessa de futuro?


Lembre-se: a maior e mais importante marca foi deixada nas mãos daquele que dividiu a História: Cristo. Suas mãos marcaram uma humanidade inteira, que foi redimida através dos cravos em suas mãos.


E você, que tem o futuro em suas mãos? O quê fará dele?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Meu outono

O outono é meu, e troco de folhas, e dou frutos, e mudo constantemente, mas sempre mantendo minha essência. Deixo o vento levar para longe a pilha de folhas secas da alma. Deixo chover, lavar, molhar, escorrer pelo corpo todo esse poema liquefeito além da meta e da física. As folhas dançam ao meu redor.

Espero a chuva cair nas minhas costas, no meu rosto, na minh'alma, amolecer, fertilizar, purificar... Ungir meu ser, uma promessa. Sonhos que estão por vir e que meus olhos nunca viram, nem ao meu coração chegaram. Coisas grandiosas demais para um só sentimento.

E eu sou toda emoções razoáveis, racionais, tropicais. Essas gotas de trópicos trôpegas travam tréguas atrevidas, atravessam trovas e trincas. Tra-tra-tra... Canta seu titilar nas janelas. Já dizia Alberto Caeiro: "Sei a verdade e sou feliz".

E festejo a chuva de outono como se mil primaveras explodissem, estourassem, simultâneas, semeando trovas. Canta o trovador. As canções são tão voláteis, e a música é muda. Eu me torno uma nova planta, mais fortalecida, mais vivida neste outono passageiro e serôdio.

O tempo passa; tudo gira tão devagar... Mas nada é efêmero no alvorecer de uma nova primavera. O inverno não existe; foi-se o tempo de semear, e os frutos continuam nascendo. Uma alma fecunda, nova, viva! E a vida renasce, como uma fênix. Já posso voar, como as aves de verão, através das estações da minha vida.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Pseudotexto sobre NADA.


Eu poderia dizer tantas coisas, sentir tantas coisas, pensar tantas coisas, fazer tantas coisas, e tantas outras coisas. Mas eis-me aqui. Escrevendo. E mãos à obra!


Eu poderia escrever sobre futebol, sobre notícias, sobre minha vida pessoal, sobre sentimentos, amizade, amor, coisas bonitas ou sobre a História do mundo. Mas não. Eu não escrevo sobre. Eu apenas escrevo e sinto. É a minha metalinguagem.


Poderia também falar sobre algo tão programado... Mas só consigo falar sobre o que me vem à cabeça: botões, flores, espelhos, jogos, manias e trecos, e mais qualquer coisa que, ah, sei lá. Mas as palavras acabam me dominando; sua fugacidade é incrível, e eu só tenho que me submeter a cada uma delas.


... e se eu escrevesse sobre NADA? Seria eu aceita? E se eu escrevesse um texto sem palavras, mas que trouxesse grandes reflexões da alma e da humanidade? E se... e se...









(...)












Creio que não foi possível. Tenho ainda que descobrir a fórmula ortográfico-semântico-morfológica de como escrever sem palavras. Escrevi tanto, tanto, tanto... um texto sobre o NADA. Tantas palavras, que se tornaram apenas intenções de ser textos.


sábado, 20 de outubro de 2007

Sem crédito.


- Aloam?

- Quem fala?

- Quem tá falando?

- Aff... Você tem três chances pra adivinhar.

- (func) É o Papa.

- Fala sério!

- Hum, tá, garanto que é cobrança. Ou meu nome tá indo pro SPC. Ou, sei lá, a fatura do cartão estourou...

- Puxa vida, um nome! Você não tá me reconhecendo, Debbynha?

- Ah, eu odeio que me chamem assim!! Ninguém me chamava assim desde o colegial!!

- Pois é, desde o colegial eu não falo com você. Achei o seu número assim, por acaso, num cantinho rabiscado da porcaria do meu caderninho de endereços antigos...

- Uai, você me conhece? (cospe o chiclete)

- Se te conheço? Hahahahahahahaaaaaaaaaaaaaaa... 'Cê acha que não?! Fia, sou eu! EU, lembra?!

- Ah, é você?!

- Sim, eu mesmo!

- VO-CÊÊÊÊ???!!

- Em carne, osso, e voz de barítono! Eu sabia que você se lembraria!

- (silêncio, outra fungada) ... E quem foi que disse que eu lembrei?!

- Ué, mas eu pensei...

- Pensou errado, palhaço!Olha aqui, eu estou muito bem, obrigada, juro que não sei com quem estou falando, e acho até que já perdi tempo demais gastando saliva com um anônimo desocupado recém-fugido do hospício!! Agora, se me dá licença...

- Ô, peraííí! Você precisa lembrar! Na época, eu usava uniforme da escola e jogava futebol no recreio...

- Nossa, que novidade! Nenhum dos meninos que eu conheci costumava fazer isso!! Geralmente, eles ficavam sentados conversando sobre vestidos e maquiagem... Acho que você é um prodígio!

- Engraçadinha! Mas eu costumava me destacar...

- Já sei: como o mais panaca, não é mesmo?!

- Ô, mulher brava! Você não era assim quando eu te conheci... Já o Vesguinho...

- O quê?! Você lembra do Vesguinho?!

- Há, lógico! Lembro também que você era paradona na dele...

- (ruborizando) N-n-não era, não! Lógico que não! Aliás, eu não te dei liberdade nenhuma pra falar assim comigo! E saiba que sou muito bem casada, seu... seu... desconhecido!

- Mas será o benedito que você ainda não se lembrou de mim?! Eu sentava atrás de você no segundo ano. Atrás de você, lembra?!

- Deixa eu ver... Atrás... hum... (longo silêncio) Peraí!!! Ei!!! Você não é o...

- Isso mesmo, o ... tu...tu...tu...tu..tu...


Moral da história: O crédito sempre acaba na hora errada!

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Sem nexo.

Adormeci na velha grama, num chão de giz, no meio de uma nuvem. E senti como se meu corpo se desmaterializasse.

Os olhos estavam pesados, o sol morno me dava uma comichãozinha chata e gostosa. Adormeci sob o céu nublado.

Fui a um lugar sem fim nem começo. As coisas pareciam estar fora do lugar. Meus pés não tocavam o chão, molenga, mesmo estando neles. As mãos conseguiam tocar o céu. Parece espuma e é gelado, brrrr! E eu era gigante.

(mas será possível?!)

A rua era feita de grama, e a grama, de asfalto. As pedras eram de água, e a água era empedrada. E eu conversava sobre a vida com gaivotas listradas. Eu estava na Cidade dos Sonhos.

As minhas mãos. Tinha algo nelas que me intrigava, e eu não sabia explicar o que era, mas elas pareciam ter vida própria. Elas esculpiam as labaredas de fogo de um pequeno vulcão, onde eu pude aquecer um pouco meus pés cansados. Cansados de não tocar o chão.

Sensações. E a vida corria e escorria, cantava no regaço de uma cascata de areia cristalina. Eu escutava as margaridas cantando, e rebolava junto às árvores dançantes. Era estranho, mas como me diverti!

Chegava a hora de despertar. Senti comichões de novo. Uma vontade tão grande de rir, que comecei a chorar. Queria voltar àquela cidade mais vezes. Senti que meu corpo se materializara de novo.

É tudo tão engraçado. Tão engraçado. Tão engraçado.

Esfrego meus olhos. Pingos d'água me despertaram. A noite caía, e eu nem percebi. Já é hora de voltar para casa, para o mundo, para as velhas obrigações da Cidade de Concreto.


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Soneto Estapafúrdio!


Entre ficar e partir

Há algo que ainda não se entende

Que é quando a gente

Cisma de decidir


Espalhou-se pela grama

E rolou um riso gostoso

Preguiçoso, caloroso

Escaldado, bacana


E eu, que decidia

Mais ainda me divertia

Entre o ir e o ficar


Decidi me arriscar:

Tentei fazer a dobradinha

E não saí do lugar!

domingo, 14 de outubro de 2007

Diferenças.


Por que será que somos tão complicados e, às vezes, não conseguimos sossegar o facho e engolir um sapo? Por que é tão difícil conviver com as diferenças? As pessoas que amamos nos dão tantas alegrias, nos fazem tão bem, mas, por muitas vezes, os atritos são inevitáveis. Afinal, são pessoas e personalidades completamente diferentes entre si, e, por mais que o sentimento que as une seja infinitamente maior, as brigas acabam acontecendo. Não por uma, duas vezes, mas por muitas. E não há nada de anormal nisso.


O problema é que, depois de uma briga, acabamos nos sentindo um lixo por dentro. As lágrimas rolam (ou não), a alma dói, a respiração parece tão difícil, o coração parece ter se estraçalhado. "O que foi que eu fiz?"


E tudo se torna tão deserto, tão triste, tudo parece nem ter mais cor, e você se sente a pior pessoa do mundo por isso. E você quer se desculpar, e anseia desesperadamente por resolver logo as coisas, e por não brigar mais com ninguém (como se isso fosse mais uma daquelas resoluções frustradas de Ano Novo).


Mas aí... aí vem a conversa. Aquela dura, em que você chora, fala um monte de verdades doídas e escuta o que não quer, mas que é mais do que necessária. E que, pelo menos, esclarece as coisas. É o momento crucial de qualquer relacionamento, seja com os pais, com os amigos, ou com o companheiro. Mas funciona.


Entretanto, por maior que seja o orgulho, o ressentimento ou o motivo da briga, há uma vida compartilhada. Há amor. E este nobre sentimento faz com que todas estas coisas sejam apenas detalhes presentes em qualquer relacionamento. Afinal, nem tudo são flores, um relacionamento não é uma utopia, e nem tudo é como a gente quer. As flores têm espinhos, e os jardins têm pedras e insetos. E isso não quer dizer que não há mais saída. Pelo contrário: o amor e o perdão são a saída. E o abraço reconciliador se torna inevitável. "Perdão!"


Um grande amigo me disse que é nas brigas que verdades são ditas. Afinal, não adianta passar a vida inteira comendo feijão com jabá só para não chatear Sicrano. Verdades precisam ser ditas, mas com muito cuidado, pois são como facas: podem servir tanto para cortar os defeitos de um relacionamento quanto para ferir.


Perdoe. E não desista. Que ama NUNCA desiste.