
"Quanto mais eu tento fugir da poesia, mais a bendita gruda em mim! Impregnou minhas roupas, minha alma e minhas tentativas frustradas de trivializar meus textos." - Louise Mira
Onde estou? Nunca estive aqui! E aqui nunca esteve em mim. Essa poeira no meu pé não é a mesma de sempre. Eu já não sou o mesmo de sempre. Sinto-me uma porção de humano cercada de solidão por todos os lados. Ilhado. Se eu gritar, a única resposta que obterei será um profundo e pesaroso eco. A vida gira-girando, mas eu não saio do lugar! Ainda tenho sangue nas veias?
Meus pensamentos ininterruptos interrompem um acaso. A quê tem-se resumido minha vida? Concreto, talvez? Dinheiro? Relatórios de firma? Aparências? Gestos mudos? Palavras vazias? Clássico? Hedonismo? Obrigações? Isso lá é vida? Sabia não. Nem eu acho que seja. Mas isso é o que tem construído minha realidade. Tijolos de mentira, numa vida de mentiras, que eu insisto em chamar de "omissões", "meias-verdades", "proteções"...
"Você é um bicho, Fabiano". Lembrei-me de Vidas Secas. E acho que o autor tem razão. José, você é um bicho. Um bicho marrudo, ganancioso, egoísta, amortecido. Bicho indefeso, sozinho, preso neste pedaço de aparências, infestado de corruptos, neonazistas, ditadores, imposições, tratados, tratos, conveniências. E você foi o exilado da vez, o preso político. Não da política da boa vizinhança, mas da politicagem. Da demagogia. Você precisa disso para se afirmar. Você precisa provar aos outros o quanto é bom, inteligente, conivente... E acaba não provando o que a vida tem de mais precioso.
A quem estou tentando enganar? Eu SEMPRE estive aqui, nesta ilha. Ilhado moralmente, socialmente, naufragado em meus sonhos e realizações. Conquistei tantas coisas aos olhos humanos, mas o que tenho por dentro? Meu castelo veio abaixo. Sepulcro caiado. O que fiz da vida? Do que me orgulharei? Onde estou??? Onde estou??? Estou cego!!!
Da lembrança, me veio o desespero. Do desespero, me veio a solidão. Da solidão, me esvaziei por dentro. E, por dentro, sepulcro, podridão.
E agora, José? E agora?