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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mãos dadas

Toca uma vez.

Atende, caramba.

Duas. Mas já faz três dias que a gente brigou!

Três. Vou esperar mais três.

Quatro. Tô perdendo tempo.

Cinco. Juro que esta foi a última vez que...

- Oi.

A voz de Jill não parecia tão seca desta vez. Já minha garganta...

- É... oi. Oi, Jill. Será que a gente pode, tipo, conversar? Sabe como é que é, né... já faz três dias e... e...

Droga, nunca sei como tocar em assuntos delicados.

- Você vem aqui?

É impressão minha, ou ouvi um sorriso em sua voz?

Peguei a jaqueta e saí em disparada. A gente só morava a dois quarteirões de distância, mesmo - então, poderia acabar logo com aquilo.

Achei melhor não gritar seu nome como sempre fazia, apesar do enorme desespero que tomava conta de mim. Eu e a minha menina, de novo - será? Será que, afinal, eu merecia uma chance? Ela é quem não merecia. Mas não importa - eu a amava!

A porta se abre. Lá está minha menina, com seus cabelos de fogo, com suas meias três quartos, meio furadas no dedão, com sua camiseta velha e esgarçada, e um contrastante brilho cor-de-rosa nos lábios, abertos em um sorriso sem jeito.

Mas não sem graça.

- Oi, Jill.

Ela reprimiu um beijo. Mas, pela primeira vez e a muito custo, pareceu ceder um milímetro.

- Me. Perdoa. Tá?

E, lançando-se a mim, escondeu o rosto em meu ombro. Tão frágil, tão inocente, tão infantil. No fundo, era essa a Jill que existia por trás daquela fachada rebelde e revolucionária. Uma Jill que amava, mas não conseguia demonstrar. E eu era todo seu, pronto a entregar-lhe todo o meu amor.

E a gente não falou mais nada. Eu conhecia a orgulhosa, a teimosa, a impertinente da Jill. Mas o que importava? Eu a amava! Mais me faria sofrer sua ausência a sua impertinência. Mais me faria falta essa vida toda que ela me passa, essa paz tempestuosa que via em seus olhos. Eu era bobo, sim - bobo por ela. Mas meu amor era sincero, sempre foi.

E nos sentamos no muro, como fazíamos todas as sextas antes que seus pais a chamassem, falando de tudo e de nada, da falta que fizemos um ao outro e do ralado novo no joelho dela - despenteados, mãos dadas, lua nova, e a maior felicidade do mundo estampada na cara.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ressaca sentimental

Bom, a gente tinha brigado. Juro que tentei ligar, mil vezes, mas ela não atendia, de pirraça pura. A Jill não é dessas meninas que a gente derrete com um buquê de rosas e um pouco de chocolate por cima. Não, ela não é nem um pouco romântica. Pelo menos, não é descaradamente romântica, como eu. Ela é ela, e isso é o que mais gosto nela.

Não sei por que sofro tanto. Ela é uma pessoa difícil, complicada e, sim, anti-social. Talvez seja esse o motivo de eu ser o único amigo dela - amigo que virou namorado, um caso típico. Ela, no primeiro ano, eu, com um pé na faculdade. E ela pisa no meu coração de salto agulha. E isso dói, cara! Mas o pior é que eu gosto dela. Ela é tão diferente das outras meninas (é, um amor é sempre incrivelmente diferente das outras pessoas), tão madura e decidida, e com uma personalidade forte como eu nunca vi. Tão forte que me machuca, mas tão intensa que me hipnotiza. E eu sigo feliz nesse masoquismo vicioso, num capricho dela que eu levo tão a sério.

Se é verdade que os opostos se atraem, nós somos o melhor exemplo. Racionalmente falando, não temos nada a ver. Eu, o cara careta, romântico e na minha, não o bonitão nem o mais cool da escola, o varapau de 1,82m, calça skinny e polo xadrez. Ela, a descolada, a irreverente, a polêmica, a rebelde, a inteligentíssima...

a linda.

Nunca dei de gostar de garotas problemáticas, até conhecer a Jill. Acho que foi a personalidade forte dela que me atraiu, talvez a possibilidade de um pouco de ação na minha vida tão pacata, de Beatles e Rolling Stones. Ela curtia Ramones adoidadamente, mas entrávamos em consenso com Oasis. A gente ainda era só amigo e era tarde, momento exato para raiar algo mais que um lance. Foi no fim de um luau, a gente correu para a praia, ver o sol nascer. A amizade virou sede de amor, a maresia pedia abraço. Dividimos um par de fones, uma música e um beijo, o primeiro dela, o melhor da minha vida, ao som de Don't look back in anger. Dois namorados, sós, esperando pela aurora que rompia, em silêncio, curtindo a música e as sensações.

Ninguém sabe, ninguém viu, mas, de lembrar disso, uma lágrima a espatifar-se numa listra. Vermelha. Cabelos de Jill.

Será que ela está sofrendo como eu estou? Acho que não sei tanto sobre amar quanto eu pensava. Talvez porque o primeiro amor nunca acaba, deixa marcas eternas, incuráveis, inesquecíveis. Quanto mais o tempo passa, mais eu percebo o quanto ainda sou um menino. Quero ajudá-la, salvá-la de si mesma e da dor, tentar decifrá-la, entendê-la, amá-la. Embora seja tão dura e orgulhosa, sei que ela precisa de mim. E eu preciso muito mais dela. Não vou desistir, não até decifrá-la.

Disquei seu número mais uma vez.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

D.R.

Ah, a primeira D.R. a gente nunca esquece! E nem esquece como começar outra, e mais outra, e mais outra. Acontece que eu nunca fui muito bom nisso de ficar discutindo relação, ainda mais com uma garota que tem crises de mau humor crônica e constantemente. E adivinha quando essas crises estouram?

Acertou, rapaz. Quando EU tô na parada.

E sabe qual é o problema? É que eu sou LOUCO, TONTO, completamente ALUCINADO por ela. Por isso, eu aguento o tranco. Quer dizer, até agora...

Já fazia dez minutos que eu tava na sala esperando a Jill terminar de se trocar. Ou de se maquiar, sei lá. Se eu não gostasse tanto do resultado, a ponto de ficar com cara de idiota quando ela chega assim, toda perfumada, com aquele gloss de chocolate, e me dá um selinho, acho que eu bem que podia subir as escadas, arrancá-la à força daquele quarto e chegar à tempo de achar um lugar pelo menos razoável no cinema.

Até seu pai me chutar para a rua.

- Jill, anda logo! A sessão é às oito, e já são sete e meia!
- Já vou, mas que coisa! Para de me apressar, pelamordedeus!

Ih, já vi tudo. Era a terceira vez que eu a apressava. Pudera, eu tava lá na sala desde as seis! Bom, pelo menos dessa vez eu não precisei ficar fazendo sala pro sogrão.

É, o pior ainda tava por vir.

Esperei mais cinco minutos. Caramba, a gente tinha que sair logo pra pegar aquele ônibus!

- Ji...
- Já vou, só falta escolher a roupa!

A... roupa?!

Agora ela vai escutar.

Subi as escadas com tudo e bati na porta. Aliás, soquei a porta. Ela já tinha me irritado o bastante por mais de uma hora e meia.

- Você disse ROUPA?! ROUPA, Jill?! Eu não ACREDITO que você demorou VINTE MINUTOS no banho e mais UMA HORA só pra fazer a maquiagem!!

A porta se abriu. Ela estava furiosa em seu robe pink fluorescente, os cabelos presos por uma flor de mesma cor num coque desalinhado.

Essa era minha tentação. Mas ah, eu não tava nem um pouco disposto a ceder aquela noite.

Nem ela.

- Mas será que você não tem PACIÊNCIA, Jules?! Que saco, eu só queria ficar bonita pra você!

Ah, essa é mais velha que a minha avó.

- Pois então, que começasse às nove da manhã!!
- Tá me chamando de feia?!

Ah, o equívoco. Por que as mulheres colocam tanta palavra na nossa boca?!

- Jill, pelamordedeus, eu...
- NÃO! Você falou isso!
- Eu não falei!! Eu só falei que...
- Mas não precisa falar, eu vi estampado na sua cara!
- Jill, dá pra você...

BAM!

Ótimo, porta fechada. Na minha cara.

- Nunca mais fale comigo, Jules! Eu achava que você era o único cara que me entendia, mas você é igualzinho, igualzinho a todos os homens! Não, você não me entende, você nunca me entendeu, você nem quis me levar ao show do The Morfemas outro dia, e eu chorei a madrugada inteirinha por causa disso!

Pronto, abriu o baú.

- Jill...
- Ah, vai embora! Eu posso me virar SOZINHA no MEU sábado à noite. De novo. Espero que esteja satisfeito por arruinar o resto da minha adolescência!

Não, eu não ouvi isso.

Tá, fui embora. Não tive outra escolha a não ser ceder. Quem é que aguenta a rainha do drama?

E quem é que vive sem, afinal? Mas tudo se resolve, ou, pelo menos, eu espero. É só uma questão de tempo, paciência (vou precisar de extra) e um buquê de rosas.

Ah, sei lá.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O brigadeiro

- Jill...
- Humm?
- Vem cá, dá um beijo.
- Que que é?! Que que tá querendo? Que que tá aí, cheio de gracinhas pra cima de mim, hã? Ah, garanto que tá querendo alguma coisa. Palhaço.

Caramba. Que bicho mordeu ela hoje? Estávamos sentados os dois no sofá da sala, na casa dela, vendo TV e namorando. Quer dizer, tentando. Ela, um bocado emburrada, só tinha olhos para o Bob Esponja. E eu, ali, ficava a imaginar o gosto do novo gloss dela.

- Caramba, Jill! O que é que você tem?
- Ih, nem vem, Jules, nem vem! Hoje eu não tô pra NINGUÉM, tá ouvindo? NIN-GUÉM!

Suspirei, profundamente desconsolado. Eu lhe dei um buquê, ela o jogou direto na lata de lixo. Ô mulher complicada, meu Deus do céu!

Hesitei. Ah, mas eu não ia deixar o Bob Esponja ganhar de mim, não mesmo! Peguei uma mecha do cabelo dela. Curtinho, repicado, vermelho. Fica lindo, lindo naquela pele branquinha. Minha Branca de Neve com um toque de limão, pimenta e canela.

- Ji...

Ah, que ótimo. Um grunhido como resposta.

- Ji, por favor. Se você quiser, eu vou embora. Se não tiver a fim de me ver...
- Tanto faz.

Aquilo me feriu, de verdade. Levantei do sofá, dei três passos em direção à porta. Estaquei, um puxão no braço. Ela teria que me dar um motivo muito bom para que eu permanecesse, ah, se teria!

- Não, Ju. Por favor, desculpa. Fica aí, vai, me faz companhia. Desculpa.
- Ah, tá. Você me trata que nem cachorro, e eu tenho que ficar aqui!
- Desculpa, Ju! De verdade. Não é nada com você. É... comigo.

Sentei, meio desconfiado. Ergui uma sobrancelha.

- O que é que tá pegando, Jill?
- Ah, é meio chato falar...
- Fala, Jill! Você é minha melhor amiga, e sempre me falou tudo!

Jill era mesmo minha melhor amiga, fazia uns dois anos já. A gente se conheceu nas férias quando eu tinha quinze, ela, treze, de jeans surrados, tênis encardidos e uma t-shirt que dizia: KISS THE PRESIDENT. Lembro que foi por causa disso que começamos a conversar, eu, rindo daquela frase, ela, explicando metodicamente a seriedade daquele protesto. Talvez não fosse nada contra o presidente, só um manifesto pró beijo na boca. Nossa amizade cresceu tanto, que virou amor. O primeiro amor, aquela coisa de louco, a amiga que virou namorada. Sempre tão molecona, tão impetuosa. Acho que foi isso o que me prendeu. Já estava cansado daquelas meninas todas iguais. Com a Jill não, com a Jill eu podia ser eu mesmo. E ela não deixava barato. Mas ah, eu pagaria o preço.

Sentindo o peso das minhas palavras e hesitando um pouco, soltou:

- Eu... tô de TPM.

Meu rosto queimou. Nem quero pensar na cor que fiquei. Acho que nenhuma mulher nunca chegou e me falou isso, nem minha mãe! Mas, não sei o que deu em mim...

Eu caí na gargalhada.

- Tá rindo do quê?!

Eu não conseguia responder, nem parar de rir.

- Ah, quer saber? Cai fora, seu grosso! Você não me entende, mesmo. Aliás, ninguém me entende! Será que eu não posso ser mulher em paz?!

Me recompus, já que o fogo dos cabelos dela já tinha torrado sua paciência. Abracei-a pela cintura. Foi golpe baixo. Não há mulher que resista a isso.

- Jill...

Ela amoleceu. Deixou-se cair nos meus braços, e eu consegui descobrir que o gloss novo dela era de menta. Incrível como ela é criativa!

- Que que é? - Ela tentava manter o tom irritado da voz, mas acho que já desarmei metade dele.
- Eu sei como te acalmar.

Ela me olhou, desconfiada e, ao mesmo tempo, desafiadora.

- Vai me receitar um calmante?
- Não. Vamos comer brigadeiro.

Ela me deu um beijo e saiu pulando pela casa, feliz da vida, rumo à despensa, à procura do tesouro escondido: o leite condensado.

Agora, me diz se eu sei ou não agradar às mulheres. Mesmo que vocês insistam em complicar a minha vida.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Jules e Jill

Eu e Jill, abraçadinhos, observávamos a lua nova. Sexta-feira chata e a perspectiva de um fim de semana nada promissor. O que mais um cara sério e comprometido como eu poderia esperar de uma sexta-feira à noite?
Tá legal. A parte do "sério" foi mentira.
- Sabe de uma coisa, Jill?
- O quê, Jules?
- Espero que seu pai não te mande entrar mais cedo. De novo.
Jill riu. Ela já está meio que acostumada com essas regras esquisitas para namoricos que os pais inventam. Enrolou cuidadosamente um cacho negro dos meus cabelos (é, eu já queria cortar, mas ela me disse que gostava assim), e me deu um beijinho no rosto barbado de dois dias. Faz três meses que a gente namora, e eu sou seu primeiro namorado. Na verdade, ela também é a minha. Ela tem quinze, eu, dezessete. De repente, assumi um ar grave na minha cara de bobo apaixonado.
- Que foi? - perguntou Jill.
Olhei nos olhos dela o mais fundo que pude. Eu já estava começando a ficar bom nisso, embora não passasse de um desajeitado tentando ser um pouco romântico.
- Jill... promete que vai ficar comigo... pra sempre?
- Pra sempre - repetiu. Ora, o que é que ela estava esperando?! - Dizem que o "pra sempre" sempre acaba.
- Jill, você me ama? - perguntei, ansioso. Eu sei que a gente só tem três meses, tá legal? Mas é que eu já estou começando a gostar demais, demais mesmo, dela.
- Amor - repetiu, de novo. Aquilo já estava começando a me irritar. Eu queria logo uma resposta, e ela parecia não falar coisa com coisa - Uma vez me falaram que amor é só uma coisa que inventaram nos livros.
- Hum?
- Você sabe, aquelas histórias todas de "felizes para sempre", corações saindo dos ouvidos das pessoas, beijos na chuva, filhos e rosas vermelhas.
- ...
- E borboletas. No estômago.
Emburrei, a tromba desse tamanho. Ultraje ao meu romantismo tão bem engenhado.
- Que foi?
- Nada, absolutamente - respondi. Ela acha graça quando eu falo esses advérbios e conjunções tão formais para o contexto, ou para um cara da minha idade. Sarcasmo pode até ser bem útil quando se tem uma namorada indecisa, ou quando se quer só ganhar uns beijos a mais.
E não é que deu certo? A segunda parte, pelo menos.
Depois de ficar meio entorpecido com aquele beijo, ou, talvez, com o sabor do seu brilho de cereja (e eu devia estar com cara de otário, para variar - ela sempre consegue fazer isso comigo!), voltei parcialmente a mim e, com um pigarro, prossegui.
- Como é? Eu sou ou não sou o homem da sua vida?
Sim, eu sei ser profundo. Pelo menos, eu acho que sim.
- Jules...
- Sim?
- Você só tem dezessete anos.
Recuei, constrangido. Mesmo assim, não perdi a linha.
- Pareço menos homem pra você?
- Hum... não. Na verdade, você é quase o dobro do meu tamanho.
- Um e oitenta e dois - assenti, orgulhoso, apesar de não passar de um varapau - Mas você não me respondeu.
- Ah, sabe... não sou como as minhas amigas, que vão falando aquelas coisas de romance que, no fim, não dão em nada.
Entendi, entendi. A baixinha, apesar de parecer mais uma boneca de porcelana, tinha um bocado de razão. Parecia até ajuizada para uma menina do primeiro ano. E é isso o que me deixa doido.
- Mas você - continuou - você é o meu tipo de cara... predileto - e sorriu, com covinhas.
Aquilo, sim, me deixa completa e irreversivelmente doido.
Terminamos a noite aos beijos, interrompidos às dez pelo Sr. Thompson, que chamava a filha para dentro. Um selinho rápido, enfiei as mãos nos bolsos e segui para casa, a cinco quarteirões dali. Seguindo a avenida, comecei a pensar nela de novo. Achava só que ela precisava de um pouco mais de loucura e romantismo para se livrar de todas aquelas idéias baratas e adultas demais para o meu gosto.
Mas cara, vou te contar: ô, mulherzinha difícil!
Tudo bem, tudo bem. Ainda decifro essa, antes que ela me devore. E ela já começou pelas beiradas.