sábado, 14 de agosto de 2010

Furta-cor



Texto baseado no clipe "Dare you to move", Switchfoot

Estavam os dois, deitados na grama.

Dezesseis anos, vizinhos. Tão iguais, tão loiros de olhos claros. A tarde caía, e as nuvens tingiam o céu de um tom engraçado, furta-cor, preguiçoso e indefinido.

Embora se conhecessem tão bem e há tanto tempo, de uns tempos para cá, começaram a sentir vergonha um do outro. A não saber bem o que dizer. A sentir o rosto arder de forma estranha só de pensarem um no outro. Sim, aquilo era estranho. Mesmo assim, continuavam amigos. Continuavam a se encontrar todas as sextas-feiras, ao cair da tarde, no gramado do parque.

Mas, naquele dia, ele sentiu que precisava entender o que se passava.

Lado a lado, estendidos na grama. Falando de sonhos e coisas corriqueiras. E, quando as palavras faltavam, ela sorria.

Ele precisava se mover. Precisava tomar uma atitude, de uma vez por todas. Até quando iria esperar? E se a vida passasse, ou algo os separasse antes que ele tivesse tentado?

E, enquanto observavam o céu em silêncio, deslizou a mão pela grama, tão delicadamente, que ela nada percebeu, até sentir sua mão sendo tocada de leve pelas pontas dos dedos dele. Ela, paralisada, não sentiu a menor vontade de recuar. O sorriso ainda estava ali; o coração, não se sabe mais onde; a cabeça deve ter se perdido em algum lugar do espaço.

E foi assim que, ao surgir da primeira estrela céu, duas mãos finalmente se entrelaçaram.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Cansei desse planeta.

É, é isso: cansei desse planeta. Quero criar um novo. Aliás, sempre quis. Como isso ainda não é possível, criei um blog. Ou melhor, um canteiro de rosas. E, a cada vez que venho aqui, me esqueço de tudo o que pensei em escrever antes. E, mesmo que fosse capaz de me lembrar, minhas mãos não permitiriam que eu dissesse nada além do que elas disserem por mim.

Quando venho aqui, também me esqueço de que há um mundo lá fora. Na verdade, eu até me lembro, mas sinto como se as cores estivessem cobertas por papel celofane, ou como se eu olhasse através de um espelho d'água - meu reflexo embaçado, minha identidade apagada. A atrevida inventora de textos guarda a menina doidinha no bolso e vai viver, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Mas que, na verdade, é um absurdo. É um abuso.

Mas a inventora de textos não pede muita licença, não. A menina tem mais o que fazer da vida além de vir aqui regar as rosas. A inventora tem pressa; as rosas têm sede. A menina que espere, a curiosidade que se sacie, as rosas que se deliciem o quanto quiserem.

Sei que não deveria estar aqui.

Sei que as vozes chatas do tempo perdido e das obrigações me chamam.

As inseguranças, as mil-e-uma possibilidades de futuro. Ou, tão-somente, o medo de não poder escolher.

O medo de ser escolhida.

E quem, ou o que me escolheria?

Para que me escolheriam?

Tanta gente não tem escolha. Mas e se a escolha fosse eu?

Qual o jeito certo de se medir o futuro? Minutos, segundos, etapas, dias, anos, conquistas, ações? E o tempo, como medi-lo? Relógio, calendário, passos na areia, batidas de coração, gotas de suor, pensamentos, rugas? E os sonhos? Se medem por sorrisos, lágrimas, indagações, questionamentos, possibilidades?

Se pudesse escolher, escolheria um planeta novo.

Depois de todos os meus questionamentos, penso que mereço chegar em casa. Penso que mereço um planeta e todas as suas estrelas. Penso que quero apanhar todas as gotas de chuva e todos os flocos de neve com a língua, recolher as nuvens e vestir os dias azulados. Penso que os sóis e as luas, assim, todos juntos, ficariam muito bonitos no cabelo, e que o pó do céu faz os olhos mudarem de cor.

Eu quero criar meu próprio universo. Não, eu não pertenço a este lugar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Coisa de menino

Chegou em casa, na ponta do pé. O coração ainda pulava para fora do peito, as borboletas forravam-lhe o estômago, o suor escorria. Não sabia se tinha feito certo. Não sabia se devia ter esperado. Não sabia se era certo, se era errado. Só sabia que era bom.

Cansado de novelas, e filmes, e histórias que as pessoas contam, decidiu descobrir por si mesmo qual era a graça.

Mas, apesar de todo o nervosismo, voltara para casa numa nuvem. Porque foi bom. Foi estranho, depois foi quente, depois foi bom. E continuou sendo bom. E foi a coisa mais absurda que já lhe havia acontecido.

E, por isso, estava se sentindo tão homenzinho. Seguiu direto para o banheiro, roubou a lâmina do pai e se barbeou.

Afinal, já tinha doze anos e tinha acabado de beijar na boca.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Nada demais.

Chuva e frio, esmalte azul. Uma vontade de mudar o mundo de repente. E coisas que ainda estão por vir.

Ontem, hoje e amanhã. Coisas que esqueço de escrever. Amigos, corações, vidas transformadas, loucura. Palavras, imaginação, surpresa, epifania. Futuro. Dúvidas, suposições e esperanças. Correria, sacrifício, gente nova, gente velha. Gente. Música. O show que nunca chega. A vontade de te conhecer um pouquinho mais a fundo, a vontade de me convencer. Lembranças engraçadas, vitórias e aprendizados. Amigos. Grandes amigos. Pessoas que aprendi a admirar. Circunstâncias. Imaginação.

E, com tudo isso (mais do que tudo isso), uma enorme gratidão.

Não é pra fazer sentido. Nunca foi, nunca será.

A gente só sabe o que a gente sente. De resto, não sei de mais nada. Nem preciso saber.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Humpf.


Gosto ainda mais de sorvete no inverno. E gosto das coisas mais complicadas do que realmente são. Gosto do inverso e do avesso, do fluorescente. Do cheiro das coisas, do cheiro de casa. Gosto da temperatura do focinho da poodle. De ser pega pela cintura. Do cabelo dele todo bagunçado. Gosto ainda mais de sua jaqueta de couro, de sua cara de mau. Gosto do que não consigo decifrar direito. Acho isso tudo um grande absurdo. Mas eu gosto. Eu gosto de meias listradas, de cubos de gelo, de solos de guitarra. Ficar de pijama, largada na cama, sonhando bobagens sem sentido.

E esse texto... não faz o menor sentido. E eu, por acaso, faço? E era pra fazer?

Só porque gosto ainda mais de sorvete no inverno, ainda tenho que ficar dando explicações. Humpf.

sábado, 10 de julho de 2010

Borboleta


Gostava de brincar sozinha na casinha azul. Fazia mundos de saia-rodada, cabelos-cachinhos, a flor no cabelo, o batom. Brincar de ser mulher, nos saltos de sua mãe. Só não gostava muito de rosa. O azul lhe parecia muito mais atraente, interessante, misterioso e doce. Algo um pouco menos óbvio.

Queria ser bailarina, princesa e veterinária. Uma menina típica. Se bem que, às vezes, punha-se a pensar que, se fosse astronauta, talvez conquistasse algo mais do que o mundo. E tinha o pianinho de madeira, suas sinfonias desafinadas, a plateia de bonecas, atônitas, estáticas. Talvez sorrissem por dentro. Ninguém entende as bonecas. Ninguém sabe o que elas aprontam quando não se está perto. Ou o que pensam das meninas.

Gostava dos livros. Mais das palavras do que das gravuras, sempre. Tinha mais do que apenas cinco anos de idade: era esperta e madura, mas não menos criança por isso. Gostava de contradizer-se o tempo todo, apesar de sua personalidade forte. Teimosa que só. Queria as unhas vermelhas da mãe, queria o pai. Gostava de espelhos, dançava sem saber. Suja de bolo, agora descalça. Lambendo os dedos, estudando o desenho que a borboleta fazia no ar.

"A borboleta é azul".

E tanto filosofou, rostinho sério, olhos graves, cuidadosos, que descobriu que feliz era a borboleta. Podia ser o que quisesse: fada, princesa, bailarina, astronauta, pétala de flor. Podia ter cor de céu. Ter cor de azul. Desaparecer no ar, num vôo de brisa, silenciosamente.

E decidiu que, quando crescesse, queria era ser borboleta.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Prometo.

Cada vez mais, entendo menos das coisas.

É verdade. Porque tenho aquela velha mania de prometer e dizer coisas no auge do momento para, depois, me arrepender. Por preguiça. Ou por ter sido coisa de momento, oras. Mas, se penso mil vezes e não prometo coisa nenhuma, me vem aquela velha pergunta.

"E o valor que se dá às pessoas?"

Às vezes, eu só quero é que se dane, e acho pouco. Aquele egoísmo carnal de todo ser humano. Momento, momento. Prefiro ficar jogada na cama, ouvindo Oasis e pensando na vida. Prefiro fazer o que me dá vontade. E, se tenho vontade de promessa, me vem a ressaca do prometido que não quero cumprir. Preguiça.

E tem aquelas coisas que nunca mudam. As outras, além dessa. Aquele meu modo tão sério de resolver as coisas. Aquela coisa de ser responsável, de ter opinião, personalidade forte. Aquele autismo quando estou com um livro. A velha história da mulher e seu amante - eu e o livro. Porque, muitas vezes, prefiro livros à pessoas.

Talvez eu não devesse ser tão pessoal. Tão racional. Tão exagerada. Tão contraditória.

Em compensação, descobri que nem tudo funciona tão a ferro e fogo. Que um tombo de bicicleta, às vezes, faz a gente acordar. Que os meses dos anos-novos nunca serão como esperamos à meia-noite, ao romper dos fogos. Talvez sejam melhores. Talvez nos surpreendam. Talvez nos ensinem muito ou, talvez, tanto prometam, que decepcionam. Promessas.

Ninguém mais me diz mais nada. Há o que eu prefira descobrir sozinha. Melhor ainda se puder aprender com os erros dos outros. Mas sempre haverá um erro que precisará ser só meu, e do qual não me orgulharei. Vida, erros, mais promessas. A garganta seca, de tanto prometer.

E, agora, tudo o que me prometo é que...

Não sei. Melhor esperar pra ver.