sábado, 11 de outubro de 2008

Primeiro beijo


Era tardezinha, já. Um som de piano que ninguém podia ouvir. Ninguém, a não ser os dois.

Um minuto de silêncio. Não silêncio de morte, mas de mágica. Algo que estava para acontecer, e marcar a vida daqueles dois. Uma cabeça pendia, um ombro apoiava. Cheiros, respirações, mais silêncio. Olhos, olhares, música. O amor como nunca outrora se sentira. Outra cabeça pendia. Dois narizes se tocavam. Dois corações disparavam. As mãos suavam, os pés tremiam. O que aconteceria?

Devagar, passo a passo, onda a onda, carinho a carinho, o caminho para o sonho. Dois rostos, duas vidas. Os lábios se tocam, um estralo, baixinho, suave. Calor e descobertas, perfumes e sabores, palpitações. Açúcar, chocolate ou mel? As borboletas dançavam nos estômagos, as cores desvaneciam, esmaeciam, recoloriam cada pedaço do mistério que se desvendava, que se envolvia pelos braços, num abraço. Mãos tocam a nuca, mãos tocam as mãos, rosto toca outro rosto, olhos procuram olhos. Mãos ferem o piano, lábios curam saudades. Lábios sugam o amor, lábios curam o temor, beijos unem duas vidas. Uma flor brotava dos lábios.

O Universo parou.

Dois sorrisos. Quatro mãos. Uma cabeça recostada a um peito. Dois suspiros, e tudo recomeça. Porque beijos duram para sempre.

[Ouvindo Karen's Theme - The Carpenters]

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Setenta vezes sete

Para o Tudo de Blog

Disse o mestre Cristo que este é o número de vezes que devemos perdoar quem nos magoa. Sim, somos humanos, e não erramos uma, duas vezes, mas setenta vezes sete. Ou mais. Erramos, errantes, e seguimos errando até o fim de nossas vidas. Erros trazem crescimento, caráter e aprendizado. Então, por que não perdoar? Não esquecer, mas lembrar sem mágoas, como olhar para uma cicatriz gasta, que já virou pele novamente, sem dor, sem lágrima. Perdoar é uma escolha difícil, mas nobre. Mostra que você sabe que a natureza humana é feita de erros, mas pode ser grandiosa quando há perdão. Esqueça a calculadora e faça essa escolha: perdoe incondicionalmente, indubitalvelmente e incontavelmente. E não se esqueça de que, um dia, você poderá precisar desse perdão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Mr. Rock and Roll

Muito prazer, my babe, mas permita que eu me apresente depois, no fim de tudo, no fim do mundo, num palco, numa guitarra. Cinqüentão muito charmoso, sensação das gatinhas e dos junkies. Melancólico, melódico, rítmico e prosódico. Eu sou o agudo e o estouro, o holofote dos palcos, o inocente rebelde, evolução e revolução. Eu sou a bomba de Hiroshima, que ressucitou um Ocidente, que caminhou pelas estradas e inventou Woodstock. Eu sou a fonte da juventude, a pegada e a atitude, o trash e o erudito, o dito e o desdito, eu sou o mito. I'm so hard, heavy and soft, feito de couro, jeans, rebites e remendos. Eu sou o black e o pop, eu sou o rhythm and blues, eu sou as paredes de um quarto, um furo no muro de Berlim. Eu sou Liverpool e Interpol, sou crime de estado e sátira, sou britpop e nu progressivo, sou pulos no meio de um show. Eu sou a risada e o escracho, eu sou alegria e tristeza. Eu sou o Picadilly Circus, moro em Hard Rock Café, sou quatro na faixa de trânsito, sou rasgos que arrumam o mundo. Eu sou o grito e o grave, o luxo de um lixo prolixo, sou hippie, sou yuppie, sou clubber, sou indie, so stones and strokes. Eu sou a coroa do Rei, Hey Jude! and Yesterday. Eu sou o metal, o gothic, o soft, o grunge, o punk, o Hendrix, a Joplin e o Slash. Eu sou distorção e destom, sou o tipo mais puro de som. Eu sou o escândalo mundial, sem máscaras de falsa moral, sem grilhões de quem me criou.

Nice to meet you. My name is Rock and Roll.

[Há muitas intertextualidades no texto; descubra, se puder! =D]

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Drama Queen

Para o Tudo de Blog

Quem nunca fez um draminha na vida? Seja por um resfriadinho-à-toa, que você sofreu como se fosse uma pneumonia, só pra ter os paparicos da mamãe? Ou por uma chuva inoportuna no sábado à noite, só pra convencer o seu namorado a ficar em casa com você? Fazer um draminha, de vez em quando, é uma delícia, deixa as coisas simples da vida com um toque teatral e incrivelmente divertido. Agora, viver de drama é que não dá, né, amiga? A chapinha armou? Bate cabelo! O salto quebrou? Arranca e joga no meio da rua! Levou toco? Chama as amigas e vai pra pista dançar! Mas pufavô, ninguém vive de drama. O lado comédia da vida é muito mais divertido, e o lírico, muito mais romântico. Então, corta esse drama e se joga! Se bem que, às vezes, fazer um beicinho ajuda um bocado... dá um charme que você nem imagina!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Dona Juana

Vem aqui e toma chá comigo? Ah... por nada, não, é que eu não queria ficar sozinha. Eu só queria um ombro amigo e, quem sabe, um colo e um sorriso. Dois dedinhos de açúcar, água quente e hortelã pra esquentar esse friozinho chato, essa garoa que não se decide se despenca ou dispersa, esse humor de domingo à noite. Então, vem ouvir o que se precisa ser dito precisamente por qualquer silêncio. Sweetheart, don't you worry about anything. Só um pouco mais de jazz e soft rock, talvez um mambo, e sossego e mãos dadas. Paciência. Quem mais, o que mais poderia advir? Tu só tens a mim, e eu, a ti; é isso o que importa, e nada mais. Me dá logo essa mão e esse sorriso, vem comigo e toma chá. Não desperdicemos nossos risos com ninguém mais além de nós dois. Incompreensões e diferenças à parte, nós dois sabemos que podemos nos dar bem. Eu bagunço o teu cabelo arrumado, resolvo o teu problema de solidão e, ainda por cima, te beijo, te abraço... e te faço ser o homem que sempre quiseste ser: o meu.

sábado, 4 de outubro de 2008

Junkie food e jeans 36

Capricho pergunta: Você come tudo o que quer, sem se importar com o que as pessoas pensam? É desencanada com o que a balança indica? É magra de ruim? Como lida com a relação peso x auto-estima?

Eu sempre fui magra "de ruim", e confesso: amo comer! E como mesmo, apesar de, às vezes, ser meio encanada ("mãe, tem certeza que eu não tô gorda?!"). Mas conscientemente, não só por questão de peso, e sim por saúde, principalmente, porque tenho visto amigas da minha idade com começo de diabetes e colesterol. Quem é que não gosta de comer besteira? Eu mereço um desconto, não é? Mas esse "desconto" não pode ser todo dia. Não quero engordar, não só para não estragar a "cinturinha-de-pilão", mas porque sei que isso faria mal à minha saúde. E cá entre nós, amiga: é bom demais entrar naquele jeans 36! Mas também é uma delícia devorar uma barra INTEIRINHA de chocolate, deitar no sofá e ser feliz. Com jeitinho, dá pra juntar as duas coisas sem peso na consciência (e na balança!).

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Jeans e um par de asas (final)

Angélica só sorriu.

Gabriel resistiu bravamente. Tinha medo das pessoas, por isso, escondia-se atrás de uma armadura impenetrável de Armagedom, um Armagedom ferido e sem alma. Mas Angélica era doce, menina, colorida. Ele, preto-e-branco, amargo, homem.

Ela sentiu uma simpatia tão grande pelo anjo, que foi impelida a tomar-lhe das mãos. Gabriel tentou resistir, mas ela era tão pura e tão pedaço-de-doce, que ele sentiu uma estranha preguiça de fugir. A menina do arco-íris arrastou-o para um bloco de cimento, que serviu de banco. Ali se sentaram.

Dois desconhecidos. Dois amigos. Dois irmãos.

Gabriel nunca tivera um amigo. E nunca soube o quanto é bom estar com alguém para compartilhar momentos e emoções. Angélica, do nada, começou a murmurar uma canção baixinho, quase imperceptível. Aquele enorme homem quis adormecer, e desejou nunca mais sair dali. Aquele que resistira, agora havia sucumbido. E ficaram ali, a noite inteira, esperando pelo sol, mãos dadas, sem nada dizerem. Nenhuma palavra se ouviu, apenas a canção hipnotizante de Angélica.

O sol nasceu. Gabriel acabou dormindo um pouco, sendo acordado por alguns raios de sol. Não havia nem sinal da Angélica. Nem do velho Gabriel. Ele nunca mais a viu, nem soube seu nome. E nunca mais foi o mesmo. Deixou o sol entrar em sua alma: fez amigos leais com sorrisos, café e conversa jogada fora. E para todos que encontrava contava e recontava a noite enluarada na qual conhecera uma estranha e bela criatura amiga que deixara uma marca tão forte em seu coração.